A infância é um tempo de contemplação.
Tudo tem uma dimensão diferente. As árvores parecem casinhas verdes onde
podemos subir e nos perder em digressões
sobre coisas etéreas.
A gente deita na grama e
pensa que as nuvens guardam coelhos, tartarugas, unicórnios. Ficamos horas
vendo figuras se desfazerem como se fossem algodão, que Deus cuidadosamente vai
moldando para atender nossa imaginação.
Assim como as nuvens são
passageiras, a vida também é. Quando a gente se dá conta está vivendo a adolescência.
Aquela fase em que queremos os direitos dos adultos e os deveres de criança.
Não somos mulheres, nem meninas e, muitas vezes, isso gera uma imensa confusão.
Eu não nasci com 58 anos.
Assim como você, experimentei as alegrias e inquietações. Fui uma criança muito solitária. Como morava numa
casa com um imenso quintal, ficava por ali conversando só. E deitava falação. E
criava expectativas. E fazia planos. E tinha amigos imaginários.
A solidão me levou para a
leitura. Pelas revistas que meu irmão colecionava eu ia assimilando um mundo em que o homem chegava a lua. Uma atriz
americana destruía corações, inclusive o dela, um presidente americano era
assassinado dentro de um carro em Dallas, um guerrilheiro fazia história
defendendo direitos iguais para todos. O Brasil vivia uma ditadura e a gente
tinha que cantar o hino nacional todos os dias em fila antes de ir para a sala
de aula.
As revistas me ensinaram que
a Música Popular Brasileira era reconhecida em todo o planeta, que artistas
como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso, eram vistos como astros na
Europa, mas não podiam cantar no Brasil.
Depois veio a ‘jovem guarda’.
Agora as pessoas dançavam de um jeito engraçado, casais separados no salão ao
som do “iê,iê, iê”. As meninas legais eram “papo firme”. E calhambeque era o
carro que os playboys queriam ter.
Eu era tímida. Minha vida
passava diante da TV em preto e branco com super-heróis como Zorro e Batman,
cujos filmes seriam verdadeiras comédias pastelão nos dias de hoje. Eu torcia
pelo Jerry o ratinho que estava sempre aprontando e dando a volta no Tom, o
gato. Também tínhamos Top Cat. Ah! Batatinha era meu preferido. E o malandro
Pica-Pau?
Como meu cabelo era anelado
e não se usava cabelo anelado, mamãe cortava o meu no toco. Eu parecia um
garoto. Chorava copiosamente porque me sentia ridícula naquele estilo e tudo
que eu sonhava era ter 15 anos. Naquela época chegar a essa idade era um
divisor de águas.
Os anos passavam muito
lentamente. Pensava que esse dia nunca ia chegar. E quando chegou, poucas
mudanças ocorreram, porque a maioria dos filmes que eu queria assistir só eram
permitidos para maiores de 18. E claro, eu agora sonhava que aos 18 tudo seria
diferente. E foi. E a partir dai, o tempo voou.
Bem, porque estou te
contando tudo isso? Afinal o objetivo é falar de você. Dos seus 15 anos. Eles
chegaram. Eu sei que você sonhava com uma festa pomposa, inspirada em Paris
(sempre Paris), talvez em La Casa de Papel. Uma festa com DJ, decoração, boa
comida, roupa descolada. Mas olha só. Até nisso a gente se parece. Eu também não
tive uma festa de 15 anos. Talvez por essa razão goste tanto de celebrar meu
aniversário.
Assim como você eu precisei
aceitar que a realidade era diferente da expectativa. E cá para nós eu tive
comemorações muito mais divertidas na maturidade e fazer essa passagem para os
15 não mudou minha visão de mundo. Não me fez mais triste ou feliz. Foi apenas
mais um ano. Novos sonhos. Poucos e fieis amigos. E a vida que seguiu.
Eu queria muito te contar
sobre como é chegar a esse patamar.
Mas a vida não vem com manual de funcionamento. E não existe uma pessoa igual a
outra. Cada um vem com um chip único. Cada indivíduo vai experimentar a vida de
uma maneira particular. E o dia de amanhã é um mistério que nos espreita e mesmo que nada aconteça, de
repente pode ser que haja um turbilhão de acontecimentos.
O mundo sofreu incríveis
transformações nos últimos anos. Eu nasci e cresci analógica. Você nasceu
digital e vai evoluir para tempos completamente novidadeiros.
Mas há uma coisa que não
mudou. Todos somos responsáveis por nossas escolhas. Todos nos deparamos com encruzilhadas que nos
obrigam a buscar alternativas que serão definidoras do nosso futuro. E a única bússola que funciona é uma coisa
chamada “bom senso”. Lembra que você me perguntou dia desses o significado
dessa expressão?
O “bom senso” é nosso
equilíbrio. Alguns têm. Outros, não. E ele não é igual a manga que a gente sabe
que tem uma casca e que por dentro é doce. Cada pessoa define o senso que vai lhe guiar. Pelo que
conheço de ti, eu sei que assim como eu, você tem senso de justiça. E isso pode
ser bom ou ruim. Depende de tudo que está no nosso entorno. Olha, muitas vezes por mais que a gente saiba o que fazer
e aonde quer chegar, as circunstâncias e as pessoas que fazem parte do nosso cotidiano podem interferir. Podem apertar nossa mente, podem desequilibrar
nossa jornada. Mas se posso te dar um conselho, o leme está nas nossas mãos. Sempre.

Hoje você tem a seu favor
uma coisa chamada “empoderamento”. Muitas mulheres foram e ainda são
maltratadas e mortas por pessoas que defendem a liberdade apenas para si. Posso
te assegurar que seu caminho será menos tortuoso do que foi o de sua mãe, o meu
e de tantas outras. Você vai chegar na juventude “dona do seu nariz”. Aliás,
dona de você.
Felizmente o mundo caminha
em muitas dimensões para que sejamos seres humanos, pessoas sem rótulos. Não seremos definidas pelo
gênero, raça, religião, mas por nossas ações.
Eu deixei para trás muitos
planos em razão das escolhas que fiz, mas como costumo te dizer: “quem olha
para trás vira estátua de sal”. E se posso desejar a você alguma coisa é que
você seja livre. Que tenha o olhar sempre adiante, que seja sua maior prioridade.
Isso não significa passar por cima de ninguém. Apenas ser o que você quiser.
Gosto muito de uma frase que diz: “meninas boazinhas vão para o céu, as outras vão
para onde quiserem”. E você vai chegar lá. O onde é você quem vai decidir.
Querida. Fizemos muitos planos
para esse dia. Mas como dizia minha sogra: “a gente faz um plano, Deus faz
outro”. Às vezes Deus não tem nada com isso. A verdade é que vejo muitos e
muitos dias contigo. Vejo a gente se afogando em pipoca maratonando ‘La Casa de
Papel’, ‘You’ e tantas outras séries. Vamos nos acabar em sorvete de tapioca.
Vamos ter incontáveis almoços no Outback, vamos juntas conhecer uma porção de
lugares. Vamos visitar muitas praias, dar risadas e seguir juntas.
Deus juntou nossos caminhos
por uma razão. E eu sei que quando der meu último suspiro você vai estar
segurando minha mão, mas nem se preocupe, vai demorar.
Com todos os meus defeitos,
exageros, dramas e descontrole emocional você é
um amor que escolhi para todo sempre. Tudo que estiver ao meu alcance eu farei
para que você possa ser feliz.
Uma coisa posso te dizer. Se
puder vou estar sempre perto. Lembre-se do que combinamos: “se um dia você
decidir fugir, me leva com você.”
De Ana para Ana eu te desejo Feliz 15! Feliz
vida! Sempre e para sempre, feliz!
Dinda.


