segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O Começo do Começo



Ana.

Não tenho cumprido minha promessa. Não me sinto com disposição para escrever. As ideias ficam borbulhando na minha cabeça, mas meu corpo não responde ao ritmo da mente. Tenho medo de não  deixar escritas todas as coisas que julgo serem importantes para você.

Hoje vou  falar sobre essa fase que está vivenciando. 

Quero escrever sobre esse encerramento de ciclo estudantil. Ao contrário de mim, você tem vigor físico mas não consegue concatenar as ideias. Então, bora lá de sermão.

Pois é. Teve Colação de Grau, aula da saudade, "baile". Fiquei triste de não ter participado desse momento, mas por outro lado, foi bom deixar você curtir. Estou de olho na verdadeira formatura, aquela da vida. Agora você vai enfrentar novos desafios e criar casca para chegar ao ENEM com conhecimento que te leve ao próximo nível. 

A vida é como vídeo game. Você têm fases a vencer. A diferença é que você não pode ganhar "vidas". Você tem uma única, mesmo que longa, mas é uma oportunidade exclusiva de chegar ao "Game Over." E a vida, ao contrário do vídeo game, acaba quando termina. O fim está lá. Inexorável.

Na juventude a gente tem muita pressa. Pensamos que estar 100% online ou em movimento faz com que consigamos vencer as fases, antecipar processos. Para os jovens o "dead line" está sempre ali. Mas não. Na madurez entendemos que tudo acontece a seu tempo. Gastamos muita energia. Aos 15 anos, as adolescentes já são as rainhas do drama. Tudo é hoje. Tudo tem que ser "stille," tudo tem que girar 360°. O "ego" é maior que um quarteirão, e não me refiro ao sanduíche.

Nosso melhor amigo de ontem é o chato de hoje. Aquela guria insuportável, vira sua "mana" e você não cansa de perguntar: "como não percebi que ela é super"? Daí fica melhor ainda: a gente arranja um "bonde". Aquele grupo fechado que pensa igual a gente, que equilibra o movimento, pois cada um entra com um ingrediente para fazer de todos, apenas "um". Como um super e inexplicável ser. Perfeito. Sacou, bicho? A gente vira uma espécie que orna com tudo. 




















Mas..uma hora a gente se dá conta que passou por cima do mais relevante, do real, para simplesmente gravitar no nosso mundinho particular de rebeldia disfarçada de falsas verdades. Nessa fase, a gente começa a flertar com garotos que parecem ser o amor da nossa vida. Mas depois serão tantos os amores da nossa vida, que aquele garoto vira um borrão na memória.




A gente quer ser e estar "in". Tudo que não acompanhe nosso deslumbramento é chato. Nossa vida é uma constante selfie. Cabelo jogado, cara de blogueirinha ou de roqueirinha, como você falou ao usar aquela botinha. Nosso tênis de marca é mais importante que as lições de vida que estão em toda parte, gritando para você desacelerar, mas que a gente ignora porquê sabe tudo do alto da nossa infinita estupidez. É minha querida. Aos 15 anos tudo que somos de verdade é o retrato da estúpidez. 

Nessa fase não construímos nada porque estamos inflados feito aqueles bonecos de posto de gasolina, ao tempo que vamos esvaziando e nos tornando algo murcho. Todos os ciclos terminam. Não sobra a mana. Não sobra o bonde. Nem o biquinho armado para o selfie. 






















A realidade vai cuidadosamente nos mostrando nosso insignificante lugar. São raras as Annie Frankies, Gretas Thunbergs que deixam sua marca, porque saíram da sua redoma para pensar o mundo como algo que não se limita a nós. 

Para 2020 eu espero que você pense menos em bonde, e mais em como vai organizar sua vida para o futuro. Para você que não tem privilégios, o futuro fica muito mais perto. E as opções são muito menos ofertadas. Você tem que pegar na marra. É você que vai escolher o caminho, pois toda hora vai surgir uma bifurcação. E a vida, minha querida, não tem manual, não tem tutorial e os dilemas não têm placas de sinalização.

De Ana para Ana eu desejo boa sorte! Aperte o sinto, segura na mão de Deus e use a cabeça. Talvez precise tirar um pouco de cabelo para exercitar melhor a mente.


Palavra de Dinda pode doer, mas é puro amor. Ano que vem espero mais momentos como esse. 





sábado, 11 de maio de 2019

DE REPENTE, 15.



A infância é um tempo de contemplação. Tudo tem uma dimensão diferente. As árvores parecem casinhas verdes onde podemos subir e nos perder em digressões sobre coisas etéreas.

A gente deita na grama e pensa que as nuvens guardam coelhos, tartarugas, unicórnios. Ficamos horas vendo figuras se desfazerem como se fossem algodão, que Deus cuidadosamente vai moldando para atender nossa imaginação.

Assim como as nuvens são passageiras, a vida também é. Quando a gente se dá conta está vivendo a adolescência. Aquela fase em que queremos os direitos dos adultos e os deveres de criança. Não somos mulheres, nem meninas e, muitas vezes, isso gera uma imensa confusão.

Eu não nasci com 58 anos. Assim como você, experimentei as alegrias e inquietações. Fui uma criança muito solitária. Como morava numa casa com um imenso quintal, ficava por ali conversando só. E deitava falação. E criava expectativas. E fazia planos. E tinha amigos imaginários.

A solidão me levou para a leitura. Pelas revistas que meu irmão colecionava eu ia assimilando um mundo em que o homem chegava a lua. Uma atriz americana destruía corações, inclusive o dela, um presidente americano era assassinado dentro de um carro em Dallas, um guerrilheiro fazia história defendendo direitos iguais para todos. O Brasil vivia uma ditadura e a gente tinha que cantar o hino nacional todos os dias em fila antes de ir para a sala de aula.

As revistas me ensinaram que a Música Popular Brasileira era reconhecida em todo o planeta, que artistas como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso, eram vistos como astros na Europa, mas não podiam cantar no Brasil.

Depois veio a ‘jovem guarda’. Agora as pessoas dançavam de um jeito engraçado, casais separados no salão ao som do “iê,iê, iê”. As meninas legais eram “papo firme”. E calhambeque era o carro que os playboys queriam ter.


Eu era tímida. Minha vida passava diante da TV em preto e branco com super-heróis como Zorro e Batman, cujos filmes seriam verdadeiras comédias pastelão nos dias de hoje. Eu torcia pelo Jerry o ratinho que estava sempre aprontando e dando a volta no Tom, o gato. Também tínhamos Top Cat. Ah! Batatinha era meu preferido. E o malandro Pica-Pau?



Como meu cabelo era anelado e não se usava cabelo anelado, mamãe cortava o meu no toco. Eu parecia um garoto. Chorava copiosamente porque me sentia ridícula naquele estilo e tudo que eu sonhava era ter 15 anos. Naquela época chegar a essa idade era um divisor de águas.

Os anos passavam muito lentamente. Pensava que esse dia nunca ia chegar. E quando chegou, poucas mudanças ocorreram, porque a maioria dos filmes que eu queria assistir só eram permitidos para maiores de 18. E claro, eu agora sonhava que aos 18 tudo seria diferente. E foi. E a partir dai, o tempo voou.

Bem, porque estou te contando tudo isso? Afinal o objetivo é falar de você. Dos seus 15 anos. Eles chegaram. Eu sei que você sonhava com uma festa pomposa, inspirada em Paris (sempre Paris), talvez em La Casa de Papel. Uma festa com DJ, decoração, boa comida, roupa descolada. Mas olha só. Até nisso a gente se parece. Eu também não tive uma festa de 15 anos. Talvez por essa razão goste tanto de celebrar meu aniversário.

Assim como você eu precisei aceitar que a realidade era diferente da expectativa. E cá para nós eu tive comemorações muito mais divertidas na maturidade e fazer essa passagem para os 15 não mudou minha visão de mundo. Não me fez mais triste ou feliz. Foi apenas mais um ano. Novos sonhos. Poucos e fieis amigos. E a vida que seguiu.

Eu queria muito te contar sobre como é chegar a esse patamar. Mas a vida não vem com manual de funcionamento. E não existe uma pessoa igual a outra. Cada um vem com um chip único. Cada indivíduo vai experimentar a vida de uma maneira particular. E o dia de amanhã é um mistério que nos espreita e mesmo que nada aconteça, de repente pode ser que haja um turbilhão de acontecimentos.

O mundo sofreu incríveis transformações nos últimos anos. Eu nasci e cresci analógica. Você nasceu digital e vai evoluir para tempos completamente novidadeiros.

Mas há uma coisa que não mudou. Todos somos responsáveis por nossas escolhas. Todos nos deparamos com encruzilhadas que nos obrigam a buscar alternativas que serão definidoras do nosso futuro. E a única bússola que funciona é uma coisa chamada “bom senso”. Lembra que você me perguntou dia desses o significado dessa expressão?

O “bom senso” é nosso equilíbrio. Alguns têm. Outros, não. E ele não é igual a manga que a gente sabe que tem uma casca e que por dentro é doce. Cada pessoa define o senso que vai lhe guiar. Pelo que conheço de ti, eu sei que assim como eu, você tem senso de justiça. E isso pode ser bom ou ruim. Depende de tudo que está no nosso entorno. Olha, muitas vezes por mais que a gente saiba o que fazer e aonde quer chegar, as circunstâncias e as pessoas que fazem parte do nosso cotidiano podem interferir. Podem apertar nossa mente, podem desequilibrar nossa jornada. Mas se posso te dar um conselho, o leme está nas nossas mãos. Sempre.

Ver a imagem de origem

Hoje você tem a seu favor uma coisa chamada “empoderamento”. Muitas mulheres foram e ainda são maltratadas e mortas por pessoas que defendem a liberdade apenas para si. Posso te assegurar que seu caminho será menos tortuoso do que foi o de sua mãe, o meu e de tantas outras. Você vai chegar na juventude “dona do seu nariz”. Aliás, dona de você.

Felizmente o mundo caminha em muitas dimensões para que sejamos seres humanos, pessoas sem rótulos. Não seremos definidas pelo gênero, raça, religião, mas por nossas ações.

Eu deixei para trás muitos planos em razão das escolhas que fiz, mas como costumo te dizer: “quem olha para trás vira estátua de sal”. E se posso desejar a você alguma coisa é que você seja livre. Que tenha o olhar sempre adiante, que seja sua maior prioridade. Isso não significa passar por cima de ninguém. Apenas ser o que você quiser. Gosto muito de uma frase que diz: “meninas boazinhas vão para o céu, as outras vão para onde quiserem”. E você vai chegar lá. O onde é você quem vai decidir.

Querida. Fizemos muitos planos para esse dia. Mas como dizia minha sogra: “a gente faz um plano, Deus faz outro”. Às vezes Deus não tem nada com isso. A verdade é que vejo muitos e muitos dias contigo. Vejo a gente se afogando em pipoca maratonando ‘La Casa de Papel’, ‘You’ e tantas outras séries. Vamos nos acabar em sorvete de tapioca. Vamos ter incontáveis almoços no Outback, vamos juntas conhecer uma porção de lugares. Vamos visitar muitas praias, dar risadas e seguir juntas.

Deus juntou nossos caminhos por uma razão. E eu sei que quando der meu último suspiro você vai estar segurando minha mão, mas nem se preocupe, vai demorar.



Com todos os meus defeitos, exageros, dramas e descontrole emocional  você é um amor que escolhi para todo sempre. Tudo que estiver ao meu alcance eu farei para que você possa ser feliz.

Uma coisa posso te dizer. Se puder vou estar sempre perto. Lembre-se do que combinamos: “se um dia você decidir fugir, me leva com você.”

De Ana para Ana eu te desejo Feliz 15! Feliz vida! Sempre e para sempre, feliz!

Dinda.

terça-feira, 7 de maio de 2019

QUANDO VOCÊ CHEGOU


Eu penso muito sobre como as forças do universo conspiram para que a gente venha parar nesse mundo. Duas pessoas se conhecem e num ato de amor planta-se uma sementinha. Nove meses depois vem uma cegonha  e surge alguém: Um bebezinho que vai seguir sua linha do tempo e construir sua própria estória.

Bem, você já teve aulas de biologia e sabe que ‘na real’, não é bem assim.

No seu caso, para simplificar, sua mãe conheceu seu pai. Ela era uma menina simples, carente e pensou ter encontrado um grande amor. A gente sempre pensa assim.

O importante é que dessa união meio torta surgiu você.

O Rodrigo me disse que a gente escolhe a mãe da qual quer nascer. Eu acredito. Em nenhuma situação eu gostaria de ter nascido de outra mãe. E você foi premiada com a sua.

No seu caso, como já conversamos, houve apenas um desvio de rota. Você estava destinada ao Principado de Mônaco, mas a cegonha errou feio e você foi entregue em Brazilinha. A questão é que nesse tipo de situação, as cegonhas não fazem trocas.

O importante de tudo isso é que não viemos ao mundo a passeio. A gente vem para um curso intensivo que só termina na hora que acaba. E eu te garanto: ninguém quer sair dessa escola.

Você é muito jovem, mas eu sei que já derrapou muito pelo caminho, mas quando você fala de coisas ruins, eu vejo, com profunda admiração, que está sempre sorrindo. E rir é o melhor remédio. A tristeza, as mágoas e o rancor ficaram lá atrás. Não plantou raízes.  E no meio de tantos espinhos, tinha o seu pé de acerola. E tinha você com boa índole, com determinação.

Você me ensina todos os dias sobre autoestima. Foi lá no fundo do poço buscar os sonhos que guiam sua vida. Você tem objetivo. Você tem meta. Você tem horizonte. Acima de tudo, você acredita.

Eu sou do tipo que vive olhando o retrovisor. Infelizmente perco tempo chorando o suco derramado. Enquanto você só tem olhos para frente e à sua frente está Paris. Adoro! Invejo! E quero também.

À sua frente também estão os espelhos. Se eu pudesse te dar o presente perfeito ele seria um mundo de espelhos, para que você pudesse se ver e se admirar o tempo todo. Eu estou de mal com minha imagem, mas você? Os espelhos te amam. E eles não te reproduzem, você faz com que eles te reverenciem. E joga cabelo. E faz pose. E sorri. E muda de ângulo e invariavelmente termina com a frase: "eu sou linda!!!" E é.

Mas como você mesma diz, Deus caprichou muito e eu digo que ele levou muito tempo lapidando o diamante que há em ti. Sua alma linda, sua capacidade de amar, de se doar e de fazer desse mundo um lugar melhor, de mais afeto, de acolhimento e de compaixão.

Você é a rainha da selfie, mas eu queria tirar uma foto do seu coração para que todos vissem a beleza que mora ali.

Agora, chega. Já te incensei demais.

De Ana para Ana hoje é só mais um dia para dizer: Te Amo! E agradecer a todas as forças do Universo que te trouxeram até aqui.

Dinda

domingo, 28 de abril de 2019

QUANDO A GENTE SE ENCONTROU...



Você nasceu em 2004, mas nossa estória começou lá atrás, em 1991, quando sua mãe veio viver na minha casa e me ajudar a cuidar dos serviços domésticos e dos meus filhos: Guilherme e Rodrigo.

Foram 13 anos em que sua mãe viveu comigo, numa relação conturbada, em que nunca conseguíssemos definir um papel, mas que de forma tácita se tornou uma amizade, uma relação complexa revestida de enorme fraternidade e cumplicidade, mas que pode caber em muitos rótulos.

Sobre isso vamos falando no decorrer do caminho.

Quando te vi pela primeira vez você era uma menina com pouco cabelo, o dia estava quente, você tinha cheiro de leite e eu confesso ter ficado um pouco assustada.


Eu sabia, desde sempre, que não ia dar certo. Não me refiro a você, mas ao seu pai. Infelizmente, uma dessas pessoas que não vieram ao mundo para deixar um legado de bondade e bons exemplos.

Já tivemos muitas conversas sobre isso e você conhece minha opinião absolutamente franca sobre o assunto. Eu não costumo ‘maquiar’ certos sentimentos. Meu senso de justiça é muito aguerrido e eu não compactuo com gente ruim.

Nos vimos pouco no decorrer dos anos. Eu, a distância, te mandava um presentinho, torcia por você, mas algo me mantinha afastada e a razão era a minha completa intolerância a submissão da sua mãe, que mentia de forma recorrente, para esconder de mim a realidade dura pela qual vocês passavam.

Muitas vezes meu desejo era te resgatar legalmente, mas minha vida andava de ponta cabeça e nessa época não estava em condições de cuidar sequer de mim. E havia chegado a Iasmim.

O tempo, que é o ‘senhor da razão’ cuidou de fazer nosso encontro ocorrer quando eu já estava mais madura, quando a gente, eu e você, já podíamos nos enxergar de forma mais serena. Lembro que você agora tinha muito cabelo. Eles eram cacheados e você parecia uma mini Conceição.

Naquele dia você andou com meus sapatos de salto pela casa, usou meus colares e fui tomada por uma ternura, mas não foi ainda o momento da paixão. Eu te olhava, mas tinha medo de arriscar muita ternura, tinha receio de me envolver, de ser pega pela doçura que já estava expressa no seu olhar.

Eu não sei exatamente quando foi que olhei para você e te reconheci como uma extensão de mim. Vocês tinham vindo estudar aqui perto, ficavam muito na minha casa, estavam fazendo a travessia entre dois mundos distintos e havia muito estresse.

Vocês me enlouqueciam com as brigas, sua mãe completamente perdida tentando adaptá-las a uma nova realidade, a um novo ambiente, e eu tentando, com sermões muito chatos enquadrar vocês, ao tempo em que perguntava a Deus: “quando elas vão embora daqui”?

Eu estava confusa pelas minhas várias enfermidades: físicas e mentais. Eu não queria ouvir aquela algazarra, aquela falta de postura, aquela desagregação que me tirava do silêncio, da minha bolha.

Foram uns dois anos bem complicados. E você, a seu modo, ia me jogando migalhas de pão doce, na forma de cartinhas, bilhetes, desenhos.

Até que superou uma rápida e insuportável adolescência em que todos os dias sua mãe me falava que você cortava os braços, que era fechada no seu mundo, que desenvolvia uma rebeldia que se materializou na escola com problemas que vieram bater em mim.

Eu delegava ao Rodrigo e à Bárbara os cuidados que como madrinha me cabiam. Pagava para que eles as levassem a parques, cinemas, lanches, eu não queria esse esforço. Eu sabia que você era um terreno minado para gente que como eu, queria ficar dentro da garrafa, chorar com dó de mim.

E você veio de mansinho. Quando vi, você já era minha amiga, minha mãe, minha irmã. Quando me dei conta qualquer momento sem você era penoso demais. Quando dei por mim, eu era uma dinda babona que só queria uma migalha que fosse do seu cuidado, do seu carinho. Então, a gente criou uma espécie de ponte. Uma sincronia. Tudo passou a girar em torno de você.

E enquanto eu arranjava desculpas de que estava cuidando de você, querendo que tivesse um futuro melhor, fui me enredando na sua teia de cuidados, do seu afeto especialíssimo, e recuperando a pessoa que um dia eu tinha sido. Assim, eu comecei a te contar coisas – algumas completamente proibitivas – sobre mim, eu fui desabrochando na sua frente como uma tulipa, te transportando para os meus cinquenta e tantos, ao contrário de te ajudar a passar pela dureza da adolescência.

Você é meu livro de autoajuda favorito. Você está em todos os projetos que ainda sou capaz de fazer na minha vida, eu canalizei para você todo o amor que sempre pulsou em mim, e que como mãe de meninos eu nunca pude extrapolar completamente.

Com você posso ser eu. Posso ficar muito ‘crazy’ e falar uma porção de coisas desconectas. Eu posso ser, a meu modo, uma garota boca suja, uma Natasha, como na música do Capital Inicial, “que usa salto 15 e saia de borracha”. Mas também posso fazer a Dinda mentora, que procura te apontar um norte, que tenta te oferecer uma promessa de futuro sem dores, que te conta sobre as Torres Gêmeas, que fala de política e cidadania, que de forma professoral procura inocular em tí uma bagagem de cultura, que hoje não tem valor, já que o mundo quer ser rápido e superficial.

Eu não sei aonde essa história vai dar. Eu não sei o quanto a vida ainda vai pulsar para mim, mas um sentimento me move. Agora que nossos caminhos se encontraram é minha obrigação deixar um legado para você. Te ajudar a ser diferenciada, nesse mundo de mesmice, de gente sem repertório.

Um pacto temos: eu só deixo esse mundo quando você souber conjugar o verbo no infinitivo.

Palavra de dinda.

É só o começo. E de Ana para Ana, dessas páginas sairá o testamento de vida que espero, um dia você possa herdar.

P.S – Eu marquei em negrito as palavras cujo significado você talvez não saiba. Portanto, corre para o dicionário, que esse blog também é dever de casa.

Com amor, Dinda.

https://www.youtube.com/watch?v=DNvDPxwC5NY

O Começo do Começo

Ana. Não tenho cumprido minha promessa. Não me sinto com disposição para escrever. As ideias ficam borbulhando na minha cabeça, mas...