domingo, 28 de abril de 2019

QUANDO A GENTE SE ENCONTROU...



Você nasceu em 2004, mas nossa estória começou lá atrás, em 1991, quando sua mãe veio viver na minha casa e me ajudar a cuidar dos serviços domésticos e dos meus filhos: Guilherme e Rodrigo.

Foram 13 anos em que sua mãe viveu comigo, numa relação conturbada, em que nunca conseguíssemos definir um papel, mas que de forma tácita se tornou uma amizade, uma relação complexa revestida de enorme fraternidade e cumplicidade, mas que pode caber em muitos rótulos.

Sobre isso vamos falando no decorrer do caminho.

Quando te vi pela primeira vez você era uma menina com pouco cabelo, o dia estava quente, você tinha cheiro de leite e eu confesso ter ficado um pouco assustada.


Eu sabia, desde sempre, que não ia dar certo. Não me refiro a você, mas ao seu pai. Infelizmente, uma dessas pessoas que não vieram ao mundo para deixar um legado de bondade e bons exemplos.

Já tivemos muitas conversas sobre isso e você conhece minha opinião absolutamente franca sobre o assunto. Eu não costumo ‘maquiar’ certos sentimentos. Meu senso de justiça é muito aguerrido e eu não compactuo com gente ruim.

Nos vimos pouco no decorrer dos anos. Eu, a distância, te mandava um presentinho, torcia por você, mas algo me mantinha afastada e a razão era a minha completa intolerância a submissão da sua mãe, que mentia de forma recorrente, para esconder de mim a realidade dura pela qual vocês passavam.

Muitas vezes meu desejo era te resgatar legalmente, mas minha vida andava de ponta cabeça e nessa época não estava em condições de cuidar sequer de mim. E havia chegado a Iasmim.

O tempo, que é o ‘senhor da razão’ cuidou de fazer nosso encontro ocorrer quando eu já estava mais madura, quando a gente, eu e você, já podíamos nos enxergar de forma mais serena. Lembro que você agora tinha muito cabelo. Eles eram cacheados e você parecia uma mini Conceição.

Naquele dia você andou com meus sapatos de salto pela casa, usou meus colares e fui tomada por uma ternura, mas não foi ainda o momento da paixão. Eu te olhava, mas tinha medo de arriscar muita ternura, tinha receio de me envolver, de ser pega pela doçura que já estava expressa no seu olhar.

Eu não sei exatamente quando foi que olhei para você e te reconheci como uma extensão de mim. Vocês tinham vindo estudar aqui perto, ficavam muito na minha casa, estavam fazendo a travessia entre dois mundos distintos e havia muito estresse.

Vocês me enlouqueciam com as brigas, sua mãe completamente perdida tentando adaptá-las a uma nova realidade, a um novo ambiente, e eu tentando, com sermões muito chatos enquadrar vocês, ao tempo em que perguntava a Deus: “quando elas vão embora daqui”?

Eu estava confusa pelas minhas várias enfermidades: físicas e mentais. Eu não queria ouvir aquela algazarra, aquela falta de postura, aquela desagregação que me tirava do silêncio, da minha bolha.

Foram uns dois anos bem complicados. E você, a seu modo, ia me jogando migalhas de pão doce, na forma de cartinhas, bilhetes, desenhos.

Até que superou uma rápida e insuportável adolescência em que todos os dias sua mãe me falava que você cortava os braços, que era fechada no seu mundo, que desenvolvia uma rebeldia que se materializou na escola com problemas que vieram bater em mim.

Eu delegava ao Rodrigo e à Bárbara os cuidados que como madrinha me cabiam. Pagava para que eles as levassem a parques, cinemas, lanches, eu não queria esse esforço. Eu sabia que você era um terreno minado para gente que como eu, queria ficar dentro da garrafa, chorar com dó de mim.

E você veio de mansinho. Quando vi, você já era minha amiga, minha mãe, minha irmã. Quando me dei conta qualquer momento sem você era penoso demais. Quando dei por mim, eu era uma dinda babona que só queria uma migalha que fosse do seu cuidado, do seu carinho. Então, a gente criou uma espécie de ponte. Uma sincronia. Tudo passou a girar em torno de você.

E enquanto eu arranjava desculpas de que estava cuidando de você, querendo que tivesse um futuro melhor, fui me enredando na sua teia de cuidados, do seu afeto especialíssimo, e recuperando a pessoa que um dia eu tinha sido. Assim, eu comecei a te contar coisas – algumas completamente proibitivas – sobre mim, eu fui desabrochando na sua frente como uma tulipa, te transportando para os meus cinquenta e tantos, ao contrário de te ajudar a passar pela dureza da adolescência.

Você é meu livro de autoajuda favorito. Você está em todos os projetos que ainda sou capaz de fazer na minha vida, eu canalizei para você todo o amor que sempre pulsou em mim, e que como mãe de meninos eu nunca pude extrapolar completamente.

Com você posso ser eu. Posso ficar muito ‘crazy’ e falar uma porção de coisas desconectas. Eu posso ser, a meu modo, uma garota boca suja, uma Natasha, como na música do Capital Inicial, “que usa salto 15 e saia de borracha”. Mas também posso fazer a Dinda mentora, que procura te apontar um norte, que tenta te oferecer uma promessa de futuro sem dores, que te conta sobre as Torres Gêmeas, que fala de política e cidadania, que de forma professoral procura inocular em tí uma bagagem de cultura, que hoje não tem valor, já que o mundo quer ser rápido e superficial.

Eu não sei aonde essa história vai dar. Eu não sei o quanto a vida ainda vai pulsar para mim, mas um sentimento me move. Agora que nossos caminhos se encontraram é minha obrigação deixar um legado para você. Te ajudar a ser diferenciada, nesse mundo de mesmice, de gente sem repertório.

Um pacto temos: eu só deixo esse mundo quando você souber conjugar o verbo no infinitivo.

Palavra de dinda.

É só o começo. E de Ana para Ana, dessas páginas sairá o testamento de vida que espero, um dia você possa herdar.

P.S – Eu marquei em negrito as palavras cujo significado você talvez não saiba. Portanto, corre para o dicionário, que esse blog também é dever de casa.

Com amor, Dinda.

https://www.youtube.com/watch?v=DNvDPxwC5NY

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